Beatles na Favela – O Musical

Leonardo Milani avalia o musical Beatles na Favela.                                                                                                                                                                                                                 

Todos nós já ouvimos versões diferentes de músicas dos Beatles. Não basta ir muito longe para encontrar álbuns inteirinhos de Jazz, MPB, de música erudita, ou mesmo de rock pesado, que levam o repertório do quarteto britânico para outros gêneros. Alguns são bem sucedidos, outros nem tanto.

Quando fui convidado para assistir Beatles na Favela, uma autointitulada megaprodução fruto da reunião do Grupo Cultural AfroReggae com a conhecida banda All You Need Is Love, imaginei que fosse me deparar com outra experiência do gênero. Ledo engano.

Não há dúvidas de que uma quantia razoável de dinheiro foi injetada nesse projeto: o palco com um grande cenário, projeção constante de imagens, equipe com 39 pessoas (segundo o press release), máquina de bolhas, etc. O problema é que o espetáculo se resume a uma banda tocando Beatles com dançarinos ao redor e algumas imagens ao fundo. Inexiste interação entre a música, que é inteiramente tocada no formato original, e a cultura “de favela” que supostamente estaria sendo retratada. Parece-me um pouco ofensivo, inclusive, querer justificar o nome dado ao evento (Beatles na Favela) com a simples presença de dançarinos e músicos negros no palco.

Embora a banda All You Need Is Love seja reconhecida e qualificada, ela inegavelmente pecou pela falta de ensaios. Pequenos erros, como notas erradas em solos, linhas cantadas fora do tom e uma ou outra virada atropelada acabam prejudicando a experiência como um todo. Os músicos também encarnam os seus personagens, que insistiam em conversar entre si em um inglês britânico um pouco questionável durante todo o show. Sei que essa é um dos pilares da existência do grupo, mas chega a ser irritante e não tem nada a ver com Beatles na Favela.

A orquestra, que quando presente se posicionava atrás da banda, mal pode ser ouvida durante boa parte do show, possivelmente por falha da equipe de som. Não quero soar muito acusatório, mas desconfio que em alguns momentos os músicos, embora presentes, eram substituídos por uma dose excessiva e pouco saudável de samplers (ou seja, por playbacks).

Algumas outras coisas me incomodaram. Durante todo o show, um balão em forma de coração ficou pendurado bem no meio do cenário, o que é perfeitamente admissível enquanto se toca músicas como All You Need is Love, Michelle, ou mesmo Hey Jude, mas que não tem relação alguma com Revolution, I am the Walrus, entre outras. De vez em quando as imagens projetadas eram tão nonsense e toscas que eu me sentia em um karaokê no bairro da Liberdade. Para não ser injusto, tenho que reconhecer que fora esses pontos acima, a cenografia obteve um razoável sucesso em boa parte do evento, mesmo tendo como intruso um coração flutuante. Destaque positivo para Something e Blackbird.

O ponto alto do evento sem dúvida foi a coreografia. Ela também teve suas falhas, é claro, fazendo com que muitas vezes o espectador se perguntasse como diabos aquele número circense se relacionava com a música, mas a equipe montada pela AfroReggae trouxe o movimento e o carisma que tanto faltava pro espetáculo. É uma pena que tenham ficado de fora durante quase metade do show, enquanto a banda fazia seu número.

Beatles na Favela possui algumas falhas estruturais: é uma apresentação excessivamente longa, com o tempo mal utilizado, e que passou longe de conseguir aproveitar o potencial da proposta – se é que havia uma de verdade. Mas, apesar de todos os problemas, seria uma mentira dizer que eu não me diverti: a coreografia, quando presente, consegue divertir e entreter; a cenografia, em seus bons momentos, consegue transportar o público; e a trilha sonora é composta por duas horas de Beatles sendo tocado por uma banda que consegue acertar as harmonias vocais, o que é uma raridade nesses tempos do Auto-Tune. Quando tudo acabou, eu aplaudi de pé junto com todo mundo.

Foto: Divulgação

Leonardo Milani

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