Tradicional Grupo TAPA apresenta Anti Nelson Rodrigues

Será que o dinheiro compra até amor verdadeiro? Com “Anti Nelson Rodrigues”, Grupo TAPA traz o humor e os ridículos do dramaturgo.

O Teatro Nair Bello recebe em seu palco, desde 25 de março, o tradicional Grupo TAPA em “Anti Nelson Rodrigues”, penúltimo texto da carreira do próprio Nelson escrito em 1973 e encenado pela primeira vez em 1974, mesma data, inclusive, da formação do Grupo.

Apesar do título, o texto não é tão “anti” assim, pois os personagens e a linguagem já típicos do dramaturgo estão presentes. A diferença está em seu desfecho, que traz esperança à trágica natureza humana.


Oswaldinho é um jovem rico e sem escrúpulos que, desprezado pelo pai e mimado pela mãe, consegue tudo o que quer. Ao tornar-se Presidente de uma das fábricas da família, conhece Joyce, moça pura e cristã recém-contratada e faz de tudo para levá-la para a cama, tendo como seu amigo e confidente Leleco, interpretado por César Baccan, que também é o produtor da peça.

De caráter oposto ao do patrão, Joyce, que sempre sonhou com o amor verdadeiro, resiste a Oswaldinho até o último minuto. Achei bem interessante a caracterização da personagem vivido por Carol Cashie. Apesar de representar a moça inocente cheia de sonhos e que acredita no melhor das pessoas, Joyce surge sem afetações ou demasiada vulnerabilidade. Pelo contrário, é forte em sua fragilidade e defende a si e a seus princípios com satisfatória determinação.

O pai de Joyce, Salim Simão, encenado por Oswaldo Mendes, rouba a cena em diversos momentos ao representar o personagem que, apesar de seu aparente irretocável caráter, tão admirado pela filha, tenta alertá-la para os perigos do mundo. Para tanto, compartilha, por exemplo, que ele próprio levou 18 mulheres a abortarem seus filhos.

Helenice, empregada de Salim, vivida por Penha Pietra’s, talvez pudesse ter tido uma participação mais significativa, pois se limita a ficar sentada e servir alguns cafés.

“Anti-Nelson Rodrigues” traz, propositadamente, diversos estereótipos e conturbado cenário familiar. Com as atitudes grotescas de Oswaldinho, interpretado com maestria pelo ator Augusto Zacchi, podemos rir do absurdo, mas sem esquecer que é mais realista do que parece.

A montagem do Grupo TAPA, sob a coerente direção de Eduardo Tolentino, acerta ao dar à obra de Nelson Rodrigues o tom que ela merece. Os personagens são interpretados com precisão e conseguem transmitir muito bem o universo rodrigueano.

O desfecho, apesar de percorrer caminhos improváveis, traz uma possível redenção dos personagens. Roberto Carlos finaliza, arrastando-nos consigo para uma segunda chance à capacidade de mudança. Ou não.

O espetáculo continua em cartaz até 1º de maio, às sextas, sábados e domingos, no Teatro Nair Bello. Recomendo!

Fotos: Divulgação / Ronaldo Gutierrez

Isaac Gonçalves

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