Disco novo de Marcia Castro é muita “Treta”

Mergulhada no som que se produz hoje na Bahia, cantora se joga em ritmos nunca antes experimentados para bombar nas pistas de qualquer tempo…

 

 

 

Marcia Castro nunca renegou sua baianidade nagô, mas pode-se dizer que nunca esteve tão impregnada dela. “Treta”, seu novo álbum, traz a cantora baiana transbordando sua musicalidade de origem. De um som que vem do agora. Um som que tem sido produzido há algum tempo em Salvador e que vai muito além da axé music – e não que lhe falte axé. Ao contrário. “Não é um som de axé, é uma atitude diferente, tem um discurso diferente, mas queria utilizar de coisas que o axé utilizou: os ritmos baianos”, explica.

O som que Marcia Castro mergulha da Bahia contemporânea tem pagode baiano e hip hop. Tem suingue, kuduro, funk. E muito soundsystem. Um trap Bahia tropical. De autoria de Rafael Dias, do Attoxxa, banda revelação da cena baiana atual, “Noites Anormais” foi uma das primeiras selecionadas pela cantora para compor seu repertório. O single tem auxílio da guitarra de Juninho Costa e synths, beats e arranjo de Marcos Vaz, que assina a produção do novo trabalho da cantora e compositora baiana. Carrega muito a essência do que “Treta” vem apresentar. “Quando o Rafael Dias me mostrou essa música, eu pirei. Tinha tudo a ver com o que eu estava vivendo”, conta.

Marcia Castro está no novo trabalho mais solta, sexy. Está (também) uma mulher dos movimentos do agora. Forte, empoderada. Uma mulher que não inibe seus desejos, nem esconde suas vontades. A letra sensual de “Noites Anormais” confirma a mulher independente que segue seus instintos, seja lá quais forem. A faixa “Sinto Desejo” já tem uma veia mais empoderada. Enquanto a suingada “Desce” volta a falar de meus corpos, minhas regras – e anseios. “A mulher está sempre nesse lugar de autonomia, do seu corpo, das suas vontades, dos seus desejos, mesmo que não seja direto”, diz a baiana.

Tendo como inspiração os conterrâneos BaianaSystem e a Orquestra Rumpilezz, do arranjador Letieres Leite, além de ícones internacionais como Kendrick Lamar, Beyoncé, Justin Timberlake e Rihanna, “Treta” é resultado de uma cantora baiana “afirmando meu lugar no agora”. É uma outra Marcia, fruto de algumas rupturas do passado, no sentido pessoal e musical. Algo que é possível ver – e ouvir. “Eu sou muito inquieta, em tudo, eu nunca conseguiria ficar repetindo estética. Senti vontade de romper mesmo com tudo que tinha feito. Fiz desse disco um processo de oxigenação”, comenta.

O disco é “Treta”. E é esmo. O nome veio de uma canção do conterrâneo Bruno Capinan, que viveu de perto o processo das tretas da amiga no campo afetivo, “que foi uma treta absoluta”. A letra, “simples do jeito que queria, bem Bahia”, resumia seu momento. “Foi a partir dessa treta que vieram todas as renovações pra minha vida andar, pra esse disco acontecer. Foi uma problemática que se estabeleceu como algo muito bacana pra todo mundo envolvido nessa treta”, diz.

“Treta” surge também da necessidade de representar um momento festivo, de verão. Um som que estabelecesse conexão direta, interestadual e internacional, por que não? Mas sem esquecer do dendê que corre em suas veias. “Eu quis fazer uma música que comunicasse mais, tanto esteticamente quanto no discurso, que falasse do tempo de agora. Que tivesse as referências da minha origem, o discurso coloquial baiano – desde “apertar minha mente” a “ordinário” – e se transformasse num som que chega a todo mundo. O que mais queria fazer era um disco acessível”. “Treta” e Marcia Castro chegam acessíveis e quentes, no tempo do agora.

Pedro Henrique França
Fotos: Gui Paganini

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