A Velocidade e a Visão

Existe um hábito indígena na Amazônia de fazer paradas periódicas durante uma caminhada, de tal forma que o espírito, que ficou para trás, possa novamente alcançar seu corpo.

 

 

 

A virtude maior do nosso espírito não é a velocidade mesmo, mas sua visão.

Dei um salto de volta das selvas para as cidades e o que encontrei? Ali, meus olhos viram nos civilizados os estragos causados pela ignorância daquela sabedoria selvagem: muita técnica rápida, pouca ética, e lenta.

Se um silvícola nos pode dar lições de vida e de sobrevivência, é porque algo de muito grande existe entesourado de forma nata em cada pessoa.

De fato, tenho de tudo na minha cidade, suprimentos vitais, comunicação, educação, trabalho, religião, locomoção e tudo mais, porque a Técnica saiu correndo em disparada rumo ao progresso, mas nossa pressa, justificada, aliás, há muito deixou pelo caminho a Ética.

As consequências não tardaram por chegar. O mundo do trabalho explora hoje o relacionamento humano em função da Produção e da Economia, enquanto são Produtos ou Serviços que deveriam existir em função de evolução da pessoa e de seus relacionamentos sociais. O Sistema Econômico vigente explora o Mercado, e despreza o fato de que a Economia existe para o bem e a harmonia das pessoas que formam esse Mercado. O Sistema Econômico segue um modelo clássico, de Drácula social, que vive do sangue que suga do povo.

Isso tem um nome, e se chama “inversão de valores”.

Seria como se uma locomotiva, por algum louco motivo, confiante na sua força bruta partisse em disparada rumo ao seu destino, mas seu Maquinista Sapiens se esquecesse de engatá-la o trem da vida, e deixasse pelo caminho a sua carga preciosa, a própria razão de ser da travessia. Um corpo que corre, e um espírito esquecido. Uma coisa descabida, assim como é descabido esse modelo de sociedade sem alma, que vai avante sem definir um ideal.

A natureza física do Universo segue fielmente as leis da causa-efeito: uma causa atua no presente, um efeito ocorre no futuro. Mas o espírito humano é diverso, é teleológico, ou seja, se pauta por uma causa colocada no futuro, onde o que acontece aqui e agora está ocorrendo para que um ideal seja alcançado. Traduzindo em miúdos, existimos não somente porque a vida evoluiu mecanicamente em cima de fenômenos físico-químicos-eletromagnéticos, mas a evolução ocorre porque existe “algo” que nos arrasta rumo a um destino supremo.

Mas quando esta visão teleológica social não existe numa sociedade, seus personagens não têm compromisso com o bem comum, e vale tudo na busca de resultados vantajosos, no acúmulo da própria fortuna: roubar, trapacear, enganar, matar.

Isto te lembra algo peculiar??? Este discurso não te dá a impressão de que você já viu isso antes em algum lugar do presente, seja num Planalto Central ou seja em paragens periféricas?

Esse é o motivo pelo qual a Democracia não produz os frutos sociais esperados de participação, de fraternidade, de ordem e progresso. Ela se utiliza da força de massa, que é somente seu aspecto quantitativo, desprezando o fator qualitativo, que somente a Unocracia pode dar. A Unocracia proclama a todos os ventos que a sociedade necessita de um Modelo a ser desenvolvido e implementado por todos, sem o qual a Democracia, vazia, é estéril.

O objeto material da Ética “são os usos e os costumes de um povo” que, portanto devem ter como referência um Modelo a ser seguido. E a Unocracia traz consigo o modelo da RECIPROCIDADE, que deve ser implantado nos usos e costumes de cada povo que se diga democrático. E o costume fundamental é o de que cada cidadão deva ter acesso à propriedade, material antes de qualquer coisa, e intelectual também. Não existe poder político sem poder econômico.

Não adianta, o espírito nunca chega junto. E quem tem paciência de esperar?

Ninguém é tão paciente quanto a História, e “a Verdade é a única filha do tempo”, como diz Da Vinci.

O espírito demora, no entanto sempre chega.

E chegou a hora da Unocracia, a hora de viver o espírito de reciprocidade, único caminho para se humanizar a Democracia.

 

Marco Iasi

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