Simples Assim de Martha Medeiros por Tarso Araújo

No dia 05 de setembro de 2019, estive na coletiva de imprensa do espetáculo teatral Simples Assim, dirigido por Ernesto Piccolo, com textos de Martha Medeiros adaptados pela própria escritora juntamente com Rosane Lima…

 

 

Martha Medeiros estava presente. Sempre sorridente, aguardava a liberação do teatro para o início da exibição de algumas cenas da peça e o bate-papo que se seguiria. O sorriso constante possibilitou minha aproximação sem receios. E foi diretamente para ela que a parabenizei pelo trabalho e expus minha memória afetiva como antigo profissional da Educação já que, em determinado momento de minha carreira, trabalhei com seu texto “A Fita Métrica do Amor” na formação de Educadores como forma de cultivar o amor enquanto elemento fundamental e constitutivo da prática educativa.

Feliz com o relato expressou não só o gosto por esse texto haja vista a importância desse dispositivo emocional nas relações, como também tirou uma selfie comigo, o que nos alimentou ainda mais os sorrisos e a cumplicidade do momento. Dado esse primeiro e inesquecível contato, partimos para o interior do teatro onde duas cenas da peça seriam apresentadas.

 

Duas cenas

A primeira cena é denominada “Ela, a incorruptível”. É dessa cena que surge a seguinte fala: “O medo que você tem de mim é o motor da civilização”. Quem diz isso é a Morte, personagem interpretada por Georgiana Góes. Não é de hoje que a Morte se personifica nos palcos, mas nessa peça ela assume contornos próprios não só porque sobre ela o humano implora e argumenta para escapar de suas garras, mas porque há um desvelar das relações de poder da sociedade.

Diante do empresário interpretado por Pedroca Monteiro A morte diz: “Eu sou incorruptível”. A fala é mortal não só para o personagem, mas para toda a plateia, contrapondo-se às posturas cotidianas e às estruturas que compõem nossa sociedade, escancarando para todos o que temos dentro de nossas máscaras e em nosso dia a dia. Entre frases lapidares que costuram com sutileza o cômico com o trágico que é a ideia da morte em si, a cena não apenas se detém na perspectiva do fim físico que levará a vida do personagem que se defronta com a Morte, mas com o fim do discurso humano que tenta subornar e ludibriar em favor de si próprio.

 

A segunda cena apresentada se chama Dublê. Nela, um casal dialoga. Esse diálogo, contudo, não se dá pelo olhar, pela atenção com o outro, mas há sempre um celular que interrompe a troca de olhares; há sempre uma conexão tecnológica que desconecta os discursos. Mergulhada em questões tão atuais como as relações humanas que não são fruto apenas de ficção, mas um recorte do que acontece no cotidiano das pessoas, essa cena especificamente nos apresenta como uma espécie de espelho o que nossa sociedade tem se tornado e os vazios que ela alimenta para si mesma. Além do casal interpretado por Pedroca Monteiro e Julia Lemmertz, há a dublê interpretada Georgiana Góes que nos aponta para a superficialidade das relações, dos gestos, dos olhares frente a esse mundo intermeado pela tecnologia.

Ambas as cenas nos colocam diante de nós mesmos. Não há como não se identificar e identificar no palco o mundo em que vivemos e a forma como cada um de nós vive, daí a grande capacidade de identificação que a peça traz com habilidade e humor para a plateia.

Rir de nossas tragédias cotidianas e relacionais é o que nos resta e, talvez, o que temos para olharmos de frente o que somos e onde estamos e quem sabe reagirmos a isso. É uma peça, no fundo, de resistência, como definiram os próprios atores e o diretor na conversa que ocorreu após apresentação; uma resistência ao que nos tornamos e uma resistência a todo esse artificialismo que passa pelo tecnológico, mas que está sempre vinculado à nossa condição humana dentro de uma sociedade corruptível e apartada do outro. Por tudo isso, é uma peça que deve ser conferida. A peça é o que somos. Simples assim.

 

 

 

Simples Assim
Teatro Frei Caneca
Rua Frei Caneca, 569 – Consolação, Shopping Frei Caneca
Tel.: (11) 3472-2229
Lotação: 600 Lugares
Duração: 80 minutos
Temporada: até 29 de setembro de 2019
Sextas-feiras, às 21h30
Sábados, às 21h
Domingos, às 18h

 

Tarso Araújo

Foto: Victor Hugo Ceccato

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